♣ Someday We’ll Know ♣
Início do inverno de 1989… já faz vinte anos, mas lembro-me muito bem: morava em uma pequena casinha estilo anos 60, sozinho, como sempre, rodeado apenas pelos meus mundos paralelos que continham vastos sonhos. A casa tinha apenas três cômodos; meu quarto, com minha cama – sempre com lençóis extremamente limpos –, meus livros – velhos companheiros – e uma velha máquina de escrever – confidente incomparável; uma cozinha simples, que quase nunca era usada, pois sempre preferi comer em restaurantes – talvez para observar mais, talvez por preguiça de preparar qualquer coisa que não viesse pronta, e uma sala com uma poltrona confortável e um sofá para visitas, além da baixa iluminação amarelada. Ficava em um bairro bem próximo ao centro, pois apesar de solitário, eu sempre gostei de observar as pessoas e a agitação da cidade.
Era um dos dias mais frios do início do inverno, como habitualmente, eu estava no pequeno jardim que separava com algumas flores o portão de grades e a porta da frente, sentado em uma cadeira antiga que foi do meu avô, e que eu já deixava lá fora para sentar-me todos os dias, corriqueiramente, após chegar do trabalho e tomar aquele banho quente que aliviava todos os carmas do dia, e, com um copo de capuccino quente na mão, observar as pessoas passando na rua até a hora que os alunos saiam da escola de idiomas em frente à minha casa. Nesse dia aconteceu o epílogo de um romance, que acompanhei de espectador durante todo o outono.
Desde o início do outono um rapaz branco, alto, olhos castanhos, pouco forte, pinta de galã, mas com cara de bocó, passou a freqüentar a escola. Ele sempre vinha em uma bicicleta bonita, parecia ser nova, amarela, que tinha um adesivo com um termo em inglês… “Polyphemus Regenerated”, se não me falha a memória… nunca entendi porque aquele tonto mandou colocar aquele adesivo na bicicleta, mas acho que apesar da cara de bobo, ele acabou aprisionando em sua caverna uma garota que freqüentava a escola desde o ano passado. A menina era um tanto mais nova do que ele, baixinha, branca, cabelos pretos, lisos, longos e cheios, bonita, olhar misterioso, sempre carregando muitos livros, exótica, apesar de aparentemente pertencer a uma família rica, por causa dos caríssimos automóveis com os quais um senhor de meia-idade variava quando ia buscá-la. O tal homem sempre demorava bastante para apanhá-la em frente à escola, e a garota sempre ficava esperando sozinha, apenas sobre os olhos distantes do porteiro da escola, que tinha um nome esquisito. Eu? Ah, ninguém nunca reparava em meus olhos do outro lado da rua, mas era justamente do que eu gostava, que ninguém me notasse.
Desde a segunda semana de aula o tal rapaz passou a acompanhar a garota enquanto ela esperava o senhor que a buscava diariamente. Não sei se a conheceu lá no colégio, talvez estudassem na mesma classe – é o mais provável –, mas talvez não. O fato era que o rapaz, que já tinha cara de bobo, agora parecia ter, a cada dia, um pouco mais. Sempre com os olhos brilhando quando estava perto da menina misteriosa, sempre muito nervoso, sempre muito falador, mas sempre arrancando-lhe risos. Acompanhava a espera deles diariamente e sempre tentava imaginar o que eles conversavam e o que pensavam, principalmente a cada despedida, que sempre terminava apenas com um beijinho no rosto. Sempre me preocupava em imaginar, antes, os pensamentos e as falas do tal garoto com cara de bobão, depois da garota, que apesar de também parecer fascinada pelo rapaz, sempre mantinha a pose de moça difícil. Ah, mas talvez isso tenha um motivo, acabei de me lembrar que outro dia, enquanto lia o jornal em um restaurante que costumava almoçar, estava em meu cantinho reservado, como sempre, quando vi a tal menina almoçando lá, acompanhada por um namoradinho. Ela sempre de cara fechada, trocava beijos, aparentemente “forçados”. Sim, a menina tinha um namorado, talvez por isso não desse, ainda, tanta ousadia ao menino da bicicleta amarela, mas ela gostava dele, podia-se ver isso em seus olhos… era apenas uma questão de tempo.
Era belíssimo ver os dois com os olhos brilhando ali, todas as noites, olhando um para o outro, sem se tocarem, sem beijos, sem muitos carinhos, que tanto desejavam. Ela era sempre muito sorridente, radiante, quando estava ao lado dele, imagino que tinham liberdade para falar qualquer besteira burlesca sem chateações, bem como algumas coisas nojentas que menino atrapalhado também deveria falar constantemente só para ver aquela expressão de “eca” na face dela seguida por uma gargalhada deliciosa. Enfim, poderia contar mil histórias para cada final de noite de conversa que imaginava daqueles dois. Mas o certo é que notei claramente que as investidas do garoto aumentavam gradativamente, assim como a sua cara de bobo. A garota correspondia, mas sempre levava o medo em seu semblante. Era como se eu enxergasse uma interrogação enorme dentro de cada um dos olhos da menina misteriosa. Ela sempre parecia pedir paciência, paciência, paciência… nunca consegui entender o porque (a essa altura ela já não devia namorar mais, ou, no mínimo, seu namoro que já não andava as tantas, já devia estar totalmente maçante), mas também não queira você saber as milhares de coisas loucas que se passam na cabeça de uma mulher, isso nem eu consegui imaginar, aliás, até criei lá minhas utopias, mas não há nada mais confuso do que uma mente feminina, e acabei me confundindo em meio aos meus mundos também.
Ah, já contei demais sobre meus devaneios em meio à vida daqueles… NOSSA! Nunca tinha conjeturado o nome deles. Ah, mas também não importa, o que vale é a história… e bem, “voltando” a vários dias para frente, ao meu frio final de noite d’um belo inverno…
Naquele dia não fui trabalhar, estava começando a ficar resfriado, mas nada que um dia inteiro na cama, rodeado por livros, chás e uma boa dose de sonhos não me curasse a tempo de ir para o jardim no mesmo horário de sempre, aliás, nesse dia, especialmente, fui mais cedo para fora e pude perceber que a garota chegou atrasada, estafada e apreensiva. No final das aulas, lá estavam eles, ela ainda parecia um pouco tensa, também percebi que as mãos dele suavam, e de instantes em instantes ele secava, inconscientemente, o suor da mão na sua camisa salmão ou na calça jeans desbotada. A menina usava um vestido branco com estampas na cor azul claro, mesma cor da faixa de seda amarrada na cintura… venteava bastante naquela noite, ela estava com a face virada para ele e contra o destino da forte brisa, e o vento, muito arteiro, modelava em sua aragem os cabelos da moça, que hora pintava ondas, hora desenhava uma paragem crescente com cada fio de cabelo, sempre fazendo os penteados mais inusitados e charmosos naqueles belos cabelos negros. Ela ainda estava com o olhar apreensivo e, agora, cheios de água… por alguma coisa que o rapazola disse à ela. Ele fitava-a como se finalmente entendera os pensamentos dela, ela fitava-o como se pudesse sentir exatamente o que ele sentia naquele momento, e eu fitava-os como se pudesse ver claramente a alma de ambos. Olharam-se por um instante, que me apetece chamar de “interminável”. Passou um automóvel vagarosamente sitiando meu campo visual do casal, por um instante achei que fosse aquele velho senhor que sempre a buscava, mas não, quando passou o automóvel, e que, lentamente, pude novamente enxergá-los, eles se beijavam!
(Interrupção imponente no tempo.) A menina sentou-se no quadro da bicicleta e, como era pequenina, ficou muitíssimo bem acomodada entre os braços do rapaz, que com aquela cara de bobo-idiota-galã-de-cinema saiu pedalando sorridente a sua bicicleta amarela, levando consigo a menina misteriosa sabe-se lá Deus para onde. Talvez pedalou feliz até à casa dela, à sua casa, à lua, às estrelas… Ah, que romântico, não? Até demais para o meu gosto! Mas de fato achei-me naquele romance envolvente, talvez porque em um passado remoto já sonhei com um desses, talvez porque tenha perdido a utopia de criar em um dos meus mundos um romance ideal, diria até perfeito…
A partir daquele dia não os vi mais. Como sempre, lá estava eu, no fim de noite, sentado na cadeira que foi do meu avô, bebendo meu capuccino, observando as pessoas e esperando, esperando… esperando que os dois voltassem à escola para eu criar um epílogo maior para aquele romance. Uma, duas, três… oito noites esperei ansiosamente, mas eles nunca apareciam. Pretendi por várias vezes ir até o outro lado da rua, perguntar ao porteiro da escola sobre o paradeiro daqueles que sempre estavam ali, mudando a história das minhas noites frias, mas jamais tive coragem. Também não sei se depois daqueles oito dias eles voltaram, pois o proprietário da casa foi me cobrar o aluguel (por que nunca param de nos cobrar na[da] vida?) e pedir-me para desocupar a casa com urgência, pois sua mãe, muito doente, passaria uma temporada na cidade para um tratamento médico e precisaria ficar na casa. Mudei-me às pressas para um apartamento que, por sorte, já tinha em vista, acabando assim também com a minha espera ao retorno do casal… na verdade, a espera era pela fantasia do belo romance. Restou apenas a imaginação do que pode ter sido dali pra frente… e quer saber? É bem melhor assim… Saber como as coisas começam e como tudo terminará, cá pra nós, é insuportável, é inútil! Ah… meu novo apartamento fica no primeiro andar de um edifício construído há pouco tempo, um pouco distante dali, em um bairro mais calmo, e com uma janela… adoro janelas! Jamais soube para onde o rapaz da bicicleta amarela pedalou carregando o belo sorriso da menina, nem descobri (ainda) se é possível viver um romance utópico ou viver uma fábula real… Mas agora eu tinha uma janela, uma janela sempre aberta… uma janela aberta para o mundo!
Por Junior Ferro